quinta-feira, 27 de novembro de 2008

A cidade, sua alma e a constituição de sua particularidade


A alma da cidade é a visão presente em cada análise dos cidadãos, em cada localidade, em cada som, luz, cor e tudo o que faz do espaço urbano perceptível e passível de reconhecimento aos olhares daqueles que a habitam. James Hillman, renomado psicólogo de nossos tempos, afirmou que: “quando pensamos em alma e em ligações da alma, pensamos em intimidade, e isso não tem nada a ver com o tamanho da cidade ou de seus prédios. Há sempre a possibilidade de esquinas, de cantos, de pausas, de se estar junto em interiores onde seja possível a intimidade”. Ele entende a alma como o fruto das relações sociais. Sobretudo quanto à alma de uma cidade, o mesmo vê nessas relações o caráter significativo que dá vida e sentido a grandes prédios, monumentos, altares e os mais variados lugares espalhados pelo espaço em que vive a humanidade. No livro Na Natureza Selvagem, de Jon Krakauer, é narrada a história verídica de Christopher McCandless, garoto americano de classe média alta que resolve abandonar tudo o que tinha, logo após graduar-se na universidade, para viver desprovido dos valores que regem a sociedade moderna, isolado em meio à natureza. McCandless acreditava no fato de que apenas a vida em contato direto com a natureza traria a purificação total da alma. O garoto, por fim, à beira da morte, deixa escrito num diário que mantinha, que a alma apenas se consolida como alma e se realiza a partir do contato com o outro, deixando a prova de que a essência da metáfora “alma”, tanto neste caso como em relação à alma da cidade, encontra-se no que a própria cidade propicia ao cidadão. Uma cidade sem relações sociais sólidas não apresenta caráter nenhum, nem sinal de sobrevida do social, ou seja, não se pode analisar o caráter particular nem afirmar que aquela cidade possui um “perfil”, desenvolvido a partir da relação do ser humano com o meio e com o outro que habita aquele meio. Para Hillman, as relações humanas dentro das cidades é que criam um perfil de cada uma delas. Em meio à uniformidade e impessoalidade dos grandes produtos urbanos (muros, torres etc.), encontram-se maneiras de se “abrir espaço para a alma”. Entende-se, por fim, neste breve devaneio consciente e analítico, que a verdadeira alma da cidade se caracteriza pela representação da mesma, por quem a habita, pela cultura, pela importância sócio-econômica, localização geográfica, pela diversidade étnica, racial, religiosa ou por muitos outros fatores que constroem o que se pode chamar de perfil, de essência: da verdadeira alma da cidade.

Um comentário:

Unknown disse...

Muito bom texto!! Eu acho que a cidade nos carrega e nós a levamos também, uma simbiose, uma troca de saberes, cheiros, cores, desejos, construções (no caso, reais = cidades e ideais = humanos), lembranças, falas, sussurros, olhares, pegar, sentir. Com a cidade convivemos plenamente, algumas vezes muito mais do que com as pessoas que estão em seu mundo tão focadas em si....